05 junho, 2013

Confissões de adolescente

Quando crianças somos ensinados a compartilhar e dividir as coisas materiais com os coleguinhas e demais pessoas de nosso convívio, mas ninguém ensina como dividir o amor que recebemos das pessoas que nos são queridas.

Sempre que surge um novo membro na família os pais se preocupam em não deixar a criança nova tomar toda a atenção da criança anterior e tentam integrar na rotina de quem está chegando e tudo mais, assim, o irmão mais novo já cresce com a didática da partilha de atenção e carinho e o irmão mais velho passa a entender que não é só mais ele no mundo dos pais, mas também seu novo irmãozinho.

Mas e quando isso acontece depois de 14 anos???

Há 18 anos eu fui surpreendida com uma notícia que mudaria meu cotidiano. Pra pior pensava eu no alto do meu egoísmo de filha única por 14 anos. Ahh certamente é tudo muito mais fácil afinal aquele adolescente cheio de individualismo já é adulto o suficiente para discernir as coisas e saber se comportar, diria a maioria, vai até ajudar a criar, diriam outros.
Bobinhos... Não é bem assim que as coisas funcionam... Não é um processo tão simples esse de aprender a compartilhar o amor da pessoa mais importante da sua vida até aquele momento com outro que vem sem ser convidado. E tudo o que você pensa que vai acontecer é aquela velha máxima “Meu mundo caiu...” (by Maysa), ninguém me ama e ninguém me quer, mi mi mi mi mi, hauhauhauhauhauahuahua é minha gente... Demora, tipo assim, 3 meses (alguns levam mais tempo), pra entender que você não é mais o centro do universo...

E quando esse período de autocomiseração passa você começa a prestar atenção nos pequenos milagres que ocorrem ao seu lado... É minha gente... Querendo ou não, é um milagre que acontece diante de seus olhos.

Lembro com detalhes de alguns momentos dessa apreciação... A compra do enxoval, sem muitas frescuras, tudo muito prático, diria a progenitora (quase todo realizado na finada loja Fofi – ali na w3 sul – quem lembra??); a pintura dos bonequinhos de gesso que seriam entregues na maternidade e nas visitas em casa (o cuidado de pintar um a um, cada rostinho e cada fraldinha); o preparo do quarto que antes era um escritório e foi preparado pra receber o pequeno milagre; as dificuldades de saúde que a geradora passou durante todo o processo, chegando a pensar inclusive que não conseguiria ir até o fim e ver aquela sementinha germinar... Mas, mesmo com as dificuldades ela vingou.

E chegou. Era de noite. O hospital estava praticamente vazio. Um silêncio naquela região chique da cidade... É minha gente... Ela veio ao mundo no Lago Sul... hauhauhauhauhaua privilégio de poucos. E eu lembro quando a vi passar no corredor com a enfermeira, toda enroladinha, parecendo um pacote de presente de tão embalada e durinha, só o rosto cor de rosa e as bochechas de fora. Sim, o milagrezinho veio ao mundo e era lindo... eu nunca tinha visto um daquele tamanho e tão lindo. Sem a tradicional cara de joelho amarrotado. Era toda gordinha e rosada. Uma verdadeira boneca. Depois que a enfermeira passou só a vi já em casa.

E em casa a rotina girava em torno dela. Foi a primeira vez que peguei um bebê recém-nascido no colo e ele simplesmente não chorou. Viu?! Era um milagre. Hauhauhauha todos choram comigo, mas ela não.

Os primeiros dias foram cruéis... Choro e ranger de dentes (não os dela, claro, afinal não os tinha) de fome, tadinha, a mãe tinha dificuldades em amamentar (e foi nesse dia que eu ouvi uma frase que marcou a minha existência: Mama aqui pra desentupir! – EU?!?!?!?! Com 14 anos mamando?!?!?! Jamais!!! Pede pro seu marido! – simplesmente não esqueço disso, foi traumático, huahauhauha), mas graças a Deus no fim tudo deu certo... Arrumaram uma mãe de leite por uns dias enquanto curavam a sua fonte de alimentação, precisou ficar internada recebendo “fonte de luz violeta” (só me lembro do CD de relaxamento da terapeuta que eu vou: Eu sou fonte de luz violeta... luz violeta...), mas logo logo estaria saudável e em casa, aí foi só alegria... Era leite pra dar e saúde pra vender (Leite pra doar na verdade. Toda semana os bombeiros iam buscar os vidrinhos de maionese cheios).

Foi com ela que fui chamada de mãezinha pela primeira vez. Quem segurou pra fazer o teste do pezinho fui eu (a mãezinha de verdade não teve coragem de ver o sangue “jorrando” e enfermeira ao ver aquela mocinha já achou logo que devia ser a mãe, afinal adolescente com bebê no colo era comum na época).

Depois disso o desenvolvimento foi de vento em popa... Crescia rápido e era esperta... Vídeos comprovam o que digo. Era uma fase interessante. Ia ajudar a colocar pra dormir e quem acabava sempre dormindo junto era eu, um clássico. Quando começou a andar a brincadeira mais divertida era a de esconder só pra depois dar um sustão e a fazer chorar, ôôôhhhh malvadeza pensaria a maioria, mas na verdade isso era apenas o catalizador para o que realmente importava na brincadeira, quando ela finalmente via quem era corria e dava um abração bem gostoso e cheio de segurança, afinal ela sabia que ninguém a faria mal se ela estivesse ali nos meus braços. A carência era minha, eu confesso, me fazia bem vê-la correr pros meus braços quando se dava conta de quem era que a estava assustando.

Os anos passaram, ela foi crescendo e ficando absurdamente tagarela. A fase do por que parecia que nunca iria passar. E foi aí que a rotina foi nos afastando... A essa altura eu já estava com quase 18 anos e agora finalmente ela sabe, que nessa idade nossos interesses eram beeeemmmm diferentes ;). Enquanto ela queria brincar no quarto, eu queria estar na rua com os amigos, nas festas e farras. Espero que hoje ela compreenda essa ausência. Mas no fundo eu sabia que em algum momento iriamos nos reaproximar.

Milhares de outros fatos tornaram por nos distanciar ainda mais fisicamente... mas nunca no coração. Meu pedacinho continuava lá, crescendo e ficando cada vez mais sabichona.

Eu saí de casa pra ter a minha casa... E ela estava lá me ajudando no dia em que fiz o primeiro (e único) bolo de aniversário para o meu namorido, no nosso primeiro mês na “casa nova”. Pra bem da verdade o bolo ficou um horror (não por ela é claro, mas pela minha falta de habilidade culinária para doces, bolos e sobremesas), mas comemos mesmo assim.

E quando meu filho nasceu lá estava ela pra pega-lo no colo e rir da carinha enrugada que ele tinha (ela agora era uma mocinha, havia virado tia, com apenas 9 anos).

A partir daí os caminhos foram distintos, pre-adolescência, aborrescência, alguns puxões de orelha, mas bem de leve, afinal ela sempre foi um exemplo de juventude saudável. Meio enjoadinha com algumas coisas, mas quem não é?!

No dia do meu casamento ela me emprestou o pai dela pra me conduzir até o altar e lá estava ela pra me receber, como uma das minhas damas adultas (é meio brega isso de dama adulta, mas ficaram lindas as 3, adorei!).

Alegrias vieram percalços também. E como nada nesse mundo é por acaso, foi a partir de um percalço que pude me aproximar novamente dela, a pedido da própria. Só o papai do céu sabe o quanto me senti feliz em ser lembrada por ela nesse momento. Poder estar perto, pegar no colo e consolar, assim como ela fez comigo poucos dias antes do meu casamento quando eu tive um pequeno atropelo. Saber que apesar da diferença de idade e de estilo somos importante uma pra outra é uma sensação que me completa.

Hoje eu sei que esse pequeno milagre veio ao mundo para me tornar uma pessoa melhor, com a qual aprendi a dividir o maior amor do mundo, sem medo de perdê-lo, mas sim de aumenta-lo, onde antes eram 2 agora são 3, ligadas pelo sangue e pela alma.

Hoje ela completa 18 anos. A tão esperada “liberdade”.

E pra você minha princesa, no dia de hoje (e sempre na verdade), eu desejo toda a felicidade que alguém pode desejar para seu próximo. Todo o amor que valer a pena. Todo o sucesso em que a alma não for pequena.

E repetirei pra ti as mesmas palavras que eu li de alguém muito importante quando completei eu meus 18 anos: A partir de agora você tem asas livres para voar. Voe bastante, mas cuidado para não ir muito alto, pois o sol forte pode queimar suas asas e a queda é inevitável. Mas mesmo na queda existem pessoas prontas para te amparar.

Te amo feinha.

Bj grande no coração.

4 comentários:

Mulher na Polícia disse...

Que gracinha... vocês duas.

Beijo!

Luana disse...

Que linda!!! =)
Parabéns, irma "liberta"!! A minha irma mais nova tem 16 anos, ainda tem mais dois de cativeiro... hehe

Inaie disse...

Que lindo isso!!!

Minha mãe engravidou quando eu tinha VINTE E UM, e eu tive todos os xiliques de filha-unica-mimada!

Confesso.

Débora disse...

que lindo! Parabens as duas irmas pela amizade!